O Ausente
Festa de família, todos chegavam, cumprimentavam-se com um abraço forte, terno e temeroso.
Todos riam e acarinhavam-se, como se nunca mais fossem ver um ao outro.
Todos comiam, bebiam, fumavam e cantavam, numa alegria saudosa, duma saudade que não passa, saudade ausente.
Filhos órfãos que tinham, como mãe, apenas a memória e, como pai, os vícios de uma fuga louca e atordoante.
No final, a morte não era tão penetrante, fazia falta sim, mas era entendida num calar comum a todos. A falta ali era a ausência da vida, daquele que ainda havia e poderia ter estado lá, mas preferiu esquivar-se, criar uma terceira margem. E agora todos separados por uma solidão.
Cada um, ali, era ele, sofrendo a mesma falta, da mesma mãe, mas a mãe estava dentro, de alguma maneira.
Só o pai faltava e, na sua ausência, imcorporavam-no pelos vícios existenciais e bebiam-no, e fumavam-no toda a essência que, se estivesse lá, teria mais gosto, mais significado.
Éramos seis órfãos de um fim de noite qualquer, tendo na memória a alma da mãe e na saudade a despresença do pai.
20/12/09